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Fernanda F. D’Agostini • 01/12/2025

NBR 15575 na arquitetura: Guia de Decisão

Conhecida como Norma de Desempenho, a NBR 15575 na arquitetura não é apenas um documento técnico: ela se consolida como um verdadeiro guia estratégico para projetos de edificações habitacionais no Brasil. Ao definir exigências de desempenho relativas a conforto, durabilidade e segurança, a norma orienta escolhas desde a concepção do projeto, apoia o equilíbrio entre custo, qualidade e expectativas dos stakeholders, e fortalece a atuação do arquiteto como gestor de requisitos e integrador de sistemas.

Essa visão integrada encontra forte relação com a etapa inicial de definição das necessidades do cliente. Como aprofundado no artigo da Pensaer sobre briefing na arquitetura, o alinhamento de expectativas é essencial para decisões consistentes — especialmente quando o desempenho passa a ser critério técnico e não apenas uma preferência subjetiva.

Com base em estudos acadêmicos e na experiência da indústria da construção, este artigo analisa por que incorporar a NBR 15575 na arquitetura desde o início do processo contribui para tornar os projetos mais confiáveis, transparentes e alinhados com as exigências técnicas e necessidades dos usuários.

Por que a NBR 15575 transforma a forma de projetar

A norma adota uma abordagem orientada ao “desempenho”: em vez de prescrever métodos construtivos, ela define os resultados mínimos esperados para diversos sistemas da edificação — desde a estrutura até coberturas, sistemas de vedação, pisos e instalações.

Esse enfoque tem implicações profundas, pois as decisões de projeto deixam de estar guiadas apenas por tradição, estética ou custo inicial, e passam a considerar parâmetros como conforto térmico e acústico, estanqueidade, durabilidade, manutenção ao longo do ciclo de vida, entre outros. Em função disso, o escopo do projeto, o orçamento, o cronograma e os critérios de qualidade precisam ser planejados e geridos de forma consciente e estruturada — ou seja, como num verdadeiro processo de gestão de projetos.

Essa discussão se articula com o que foi exposto no artigo da Pensaer sobre a importância da gestão de projetos na formação de arquitetos e urbanistas, em que se observa que o arquiteto contemporâneo precisa dominar métodos de tomada de decisão que conciliem viabilidade, sustentabilidade e atendimentos normativos.

Estudos recentes mostram que a norma representa uma mudança de paradigma no Brasil — aproximando práticas de projeto às tendências internacionais de desempenho e sustentabilidade.

Segundo pesquisadores como Sattler (2017) e Mitidieri Filho (2015), o desempenho passa a ser uma métrica objetiva que orienta decisões desde a concepção até a execução e uso do edifício. Isso reduz riscos, garante previsibilidade e aumenta a qualidade final do empreendimento.

Evidências acadêmicas e técnicas: a norma sob o olhar da pesquisa

Para dar maior embasamento e credibilidade ao argumento, podemos recorrer a alguns estudos recentes que analisam a aplicação da NBR 15575 na arquitetura:

Esses exemplos garantem que não estamos tratando apenas de boas intenções: há evidência empírica de que a norma impacta diretamente a qualidade, o conforto e a viabilidade de edificações no Brasil.

Integração com a gestão de projetos e com o escritório de arquitetura

Nos estudos de caso avaliados por Silva & Mitidieri (2020), a aplicação da norma mostrou que boa parte dos problemas de desempenho deriva:

  • de incompatibilidades entre projetos
  • de falta de definições claras em fases iniciais
  • de ausência de critérios de desempenho nas especificações

Ou seja, a NBR 15575 na arquitetura funciona como ferramenta de integração interdisciplinar, desta forma ajuda a definir critérios objetivos que arquitetos, engenheiros, fornecedores e construtores devem seguir. Assim, o arquiteto atua como coordenador do processo, garantindo coerência entre expectativas, técnicas e custos.

Diante desse contexto, incorporar a NBR 15575 na rotina do escritório se torna mais do que recomendável — torna-se essencial. A norma exige:

  • visão sistêmica do projeto,
  • compatibilização entre disciplinas (arquitetura, estrutura, acústica, instalações etc.),
  • registro claro de requisitos e decisões,
  • análise de trade-offs entre desempenho, custo e viabilidade,
  • estratégias de mitigação de riscos (técnicos e contratuais),
  • transparência de comunicação com stakeholders.

Ou seja: os conceitos centrais da gestão de projetos — escopo, qualidade, custo, risco, comunicação — convergem de forma natural com a aplicação da norma, isso dá ao arquiteto um papel de gestor de requisitos e de integrador de sistemas, além de projetista.

Essa convergência entre método, desempenho e gestão é justamente uma das discussões presentes nas abordagens contemporâneas da prática profissional, como apontam autores que analisam o impacto do PMI, do BIM e de processos colaborativos na construção civil.

Conclusão — Norma, pesquisa e prática profissional convergindo para a qualidade

Trazer a NBR 15575 do “final da obra” para o “início do projeto” transforma a norma em uma aliada. Com base em evidências acadêmicas e no entendimento do processo de projeto como um sistema integrado, o arquiteto-gestor pode antecipar problemas, justificar escolhas, equilibrar desempenho e custo, e oferecer ao cliente uma edificação realmente alinhada às suas expectativas e necessidades.

Essa abordagem reforça o compromisso técnico, fortalece a segurança jurídica e aumenta o valor percebido do projeto — ao mesmo tempo em que conecta a arquitetura às boas práticas de gestão e às discussões contemporâneas sobre sustentabilidade, conforto e qualidade de vida.

Referências:

ABNT. NBR 15575: Edificações Habitacionais – Desempenho. São Paulo, 2021.

MITIDIERI FILHO, C. Metodologia para avaliação de desempenho de edificações. IPT, 2015.

SATTLER, M. A. Desempenho, edificações e conforto ambiental. UFRGS, 2017.

SILVA, L.; MITIDIERI FILHO, C. Compatibilização de projetos e desempenho arquitetônico. Revista Paranoá, 2020.

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