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Fernanda F. D’Agostini • 14/05/2026

Ah, Lisboa! O que aprender e o que esquecer com você

Este artigo é um pouco diferente do que estão habituados a ver por aqui, peço-lhes uma licença poética para compartilhar o olhar de uma arquiteta e urbanista em passagem por esta cidade, vamos falar um pouco mais sobre espaço público e mobilidade urbana dentro da lógica de uma cidade tradicional.

Mas antes, é importante alinhar alguns pontos: não há aqui a pretensão de estabelecer comparativos diretos com outras cidades, sobretudo de grande porte. O objetivo é outro — analisar questões urbanas que atravessam o cotidiano independentemente da escala. O foco está na qualidade do espaço construído e na forma como ele é apropriado pelas pessoas.

Lisboa e a experiência urbana: entre história e uso cotidiano

Andar por Lisboa é, inevitavelmente, respirar história. Suas construções alinhadas à calçada, em sua grande maioria de uso misto — comércio no térreo e habitação nos pavimentos superiores — revelam uma lógica urbana que Jane Jacobs já defendia como essencial para a vitalidade das cidades: diversidade de usos, gerando permanência e segurança.

As fachadas encantam pelas cores e pelos detalhes ornamentais de diferentes estilos que coexistem de forma harmônica. Não se trata apenas de estética, mas de uma camada de tempo construída, que reforça identidade e pertencimento.

Observa-se o cuidado com a preservação do patrimônio e da memória dos tempos áureos de Portugal nas esculturas das praças, nos registros das fachadas, às vezes pequenas placas discretamente posicionadas ao lado de uma singela porta revela curiosidades de habitantes famosos, o caso mais emblemático neste caso é a plaquinha ao lado de uma pequena porta de acesso a um apartamento no Chiado, onde por alguns anos morou Fernando Pessoa.

Esse gesto, aparentemente simples, é poderoso: ele transforma a cidade em um suporte narrativo, reforçando aquilo que Jan Gehl chama de “cidade para pessoas”, onde a experiência urbana vai além da função e incorpora significado.

Patrimônio e burocracia: quando a preservação não resolve o presente

O registro da memória junto ao patrimônio construído revela a existência de uma política pública estruturada, porém burocrática, não é incomum encontrar placas com dezenas de informações referentes a processos, autorizações, alvarás e outros documentos nas fachadas de edifícios que estão passando por algum tipo de intervenção ou reforma.

E, apesar desse aparato, há uma lacuna evidente: a modernização da infraestrutura.

Lisboa convive com um problema recorrente e visível — redes elétricas e cabeamentos expostos cruzando fachadas como um verdadeiro varal urbano. Aqui emerge uma das grandes questões contemporâneas do urbanismo:

Como atualizar o patrimônio sem comprometer sua integridade?

A cidade ainda não responde a essa pergunta de forma estruturada. O problema não é apenas estético, mas também técnico — com riscos associados à segurança e à manutenção.

Detalhe da fiação exposta nas fachadas | Foto: Fernanda D’Agostini

Mobilidade eficiente, caminhabilidade em tensão

Mas não só de patrimônio que se constrói uma cidade, se deslocar em Lisboa é muito simples e rápido, com sistema de ônibus, metrô e trem integrados, rapidamente você consegue alcançar qualquer ponto da cidade. 

A pontualidade — um aspecto frequentemente negligenciado em muitas cidades — aqui se mostra consistente, reforçando a confiabilidade do sistema. 

Essa eficiência dialoga diretamente com o conceito de mobilidade sustentável defendido por Carlos Leite, no qual a integração entre modais é fundamental para a qualidade de vida urbana.

Fluxo de pedestres na região da Marquês de Pombal – Lisboa | Foto: Fernanda D’Agostini

No entanto, quando o assunto é caminhabilidade, o cenário se torna mais complexo. Calçadas largas, arborização e travessias bem posicionadas estão presentes. Mas as tradicionais pedras portuguesas — elemento identitário — tornam-se um obstáculo físico real. Com o uso contínuo, comprometem o conforto e a ergonomia do caminhar.

Acessibilidade: a cidade que ainda exclui

Um dos pontos mais gritantes para esta observadora, sem dúvida é a acessibilidade que quase inexiste, não só pelas calçadas em pedras portuguesas que dificultam a rolagem de uma cadeira de rodas ou mesmo o caminhar de uma pessoa com mobilidade reduzida, mas também pela falta de rampas, sinalização e, em muitas estações de metrô e trem a falta de escadas rolantes nos seus acessos.

Lisboa evidencia uma contradição significativa: uma cidade rica em espaço público, mas ainda pouco inclusiva. A topografia — marcada por encostas e ladeiras — agrava ainda mais essa condição.

Aqui, a discussão ultrapassa o desenho urbano e entra no campo da justiça espacial. Uma cidade só é, de fato, democrática quando pode ser utilizada por todos.

Centro valorizado, periferia distante: um problema estrutural

Retomando a questão do uso misto, Lisboa ainda mantém moradores nas áreas centrais. No entanto, o alto valor do solo e dos aluguéis cria um processo claro de segregação socioespacial.

As áreas mais bem infraestruturadas acabam sendo apropriadas pelas camadas de maior renda, enquanto os grandes conjuntos habitacionais se deslocam para regiões periféricas, menos servidas de mobilidade e serviços.

Área metropolitana de Lisboa, ao norte da estrada IC19 (Vista da Estação de trem Rio de Mouro) | Foto: Fernanda D’Agostini

Esse modelo reforça um padrão já amplamente criticado no urbanismo contemporâneo: o espraiamento urbano.

Como aponta Carlos Leite, cidades dispersas são economicamente mais caras, socialmente mais desiguais e ambientalmente menos eficientes.

O custo é duplo:

  • para o poder público, que precisa expandir infraestrutura
  • para o cidadão, que perde tempo e qualidade de vida em deslocamentos pendulares

Espaço público e apropriação: onde Lisboa se destaca

Se há um aspecto em que Lisboa se destaca de forma incontestável, é na apropriação dos espaços públicos: praças, calçadas, calçadões são tomados por bancos e mesas que te convidam a ficar mais um pouquinho. 

A permissividade regulatória para o uso desses espaços pelo comércio local cria uma dinâmica urbana vibrante. Comer, tomar um café ou simplesmente observar a cidade torna-se parte da experiência cotidiana.

Essa ativação constante reforça um dos princípios mais conhecidos de Jane Jacobs:

“Olhos da rua” são o mecanismo mais eficiente de segurança urbana.

Mais do que vigilância, trata-se de presença.

Apropriação do espaço público no centro de Lisboa pelo comércio e usuários | Foto: Fernanda D’Agostini

Essa lógica se estende aos parques, que em Lisboa se integram de forma orgânica ao tecido urbano. Sem cercamentos rígidos, funcionam como extensões naturais da cidade.

Nos fins de tarde e finais de semana, esses espaços se transformam: pessoas lendo, grupos conversando, indivíduos contemplando o pôr do sol. Essa relação cotidiana com o espaço livre reforça aquilo que Jan Gehl define como qualidade da vida urbana — quando o espaço convida à permanência, não apenas à passagem.

O que Lisboa nos ensina

Lisboa nos mostra que uma cidade pode, simultaneamente, preservar sua história e oferecer qualidade de vida. Mas também evidencia que bons espaços não eliminam problemas estruturais.

Entre acertos e contradições, ficam algumas lições claras:

  • uso misto fortalece a vitalidade urbana
  • mobilidade integrada melhora o cotidiano
  • espaço público ativo promove segurança e pertencimento
  • acessibilidade ainda é um desafio central
  • segregação socioespacial continua sendo uma questão estrutural

Lisboa é um campo de observação crítica, e talvez seja esse o maior aprendizado:

 Cidades não devem ser copiadas — devem ser compreendidas.

Referências

GEHL, Jan. Cidades para pessoas. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2015.

______. Life between buildings: using public space. Washington: Island Press, 2011.

JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

LEITE, Carlos. Cidades sustentáveis, cidades inteligentes: desenvolvimento sustentável num planeta urbano. Porto Alegre: Bookman, 2012.

LEITE, Carlos; AWAD, Juliana Di Cesare Marques. Cidades sustentáveis, cidades inteligentes: desenvolvimento sustentável num planeta urbano. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2020.

LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

SECCHI, Bernardo. A cidade do século XX. São Paulo: Perspectiva, 2009.

UNITED NATIONS HUMAN SETTLEMENTS PROGRAMME (UN-HABITAT). World Cities Report 2022: Envisaging the Future of Cities. Nairobi: UN-Habitat, 2022.

______. Global Public Space Toolkit: From Global Principles to Local Policies and Practice. Nairobi: UN-Habitat, 2015.

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