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Fernanda F. D’Agostini • 29/07/2026

Maturidade organizacional: da avaliação à evolução

A maturidade organizacional tornou-se um tema recorrente em diferentes campos da gestão, especialmente em contextos marcados por crescente complexidade, pressão por resultados, aceleração tecnológica e necessidade de adaptação contínua. Em setores intensivos em conhecimento, como arquitetura, engenharia e construção, essa discussão ganha relevância adicional, uma vez que a qualidade técnica dos projetos, embora essencial, já não é suficiente para garantir competitividade, previsibilidade e sustentabilidade organizacional.

Ao longo desta série de artigos, discutimos que maturidade não deve ser confundida com porte, tempo de mercado ou volume de projetos. Também apresentamos que a evolução dos escritórios pode ser analisada a partir de capacidades relacionadas à integração, à inteligência de projeto, à governança e à aprendizagem contínua. Entretanto, permanece uma questão central: como transformar um diagnóstico de maturidade em um processo efetivo de desenvolvimento organizacional?

Responder a essa pergunta exige compreender que diagnósticos, isoladamente, não transformam organizações. Eles apenas tornam visíveis padrões, fragilidades e potencialidades. A mudança ocorre quando o conhecimento gerado pelo diagnóstico é incorporado às práticas, aos processos e às decisões cotidianas. Em outras palavras, a maturidade organizacional não representa um estado a ser alcançado, mas uma capacidade permanente de aprendizagem e adaptação.

Maturidade organizacional: origem e evolução do conceito

A ideia de maturidade organizacional surgiu associada à necessidade de compreender por que algumas organizações apresentavam desempenho mais consistente do que outras, mesmo atuando em condições semelhantes. Uma das primeiras contribuições estruturadas para esse debate foi apresentada por Philip Crosby (1979), ao propor o Quality Management Maturity Grid, modelo que relacionava a evolução das práticas de qualidade à capacidade gerencial das organizações.

Posteriormente, o conceito ganhou força com o desenvolvimento do Capability Maturity Model (CMM), elaborado pelo Software Engineering Institute da Universidade Carnegie Mellon, inicialmente voltado à indústria de software (PAULK et al., 1993). O pressuposto central do modelo era que organizações evoluem à medida que seus processos deixam de ser informais, reativos e dependentes de indivíduos, tornando-se estruturados, previsíveis e continuamente aperfeiçoados.

Essa lógica influenciou diversos modelos posteriores, incluindo o Project Management Maturity Model de Harold Kerzner (2001) e, no contexto brasileiro, o Modelo de Maturidade em Gerenciamento de Projetos (MMGP), desenvolvido por Darci Prado (2015). Apesar das diferenças metodológicas, esses modelos compartilham um princípio comum: organizações maduras não são aquelas que eliminam a incerteza, mas aquelas que desenvolvem maior capacidade para lidar com ela.

Esse entendimento representa uma mudança importante. Maturidade deixa de ser compreendida como acúmulo de procedimentos ou adoção de ferramentas e passa a ser entendida como desenvolvimento de capacidades organizacionais.

Aprendizagem organizacional e construção de capacidades

A literatura sobre aprendizagem organizacional oferece contribuições fundamentais para compreender esse processo.

Chris Argyris e Donald Schön (1978; 1996) argumentam que organizações aprendem quando são capazes de revisar não apenas suas ações, mas também os pressupostos que orientam essas ações. Os autores diferenciam a aprendizagem de ciclo simples (single-loop learning), caracterizada pela correção de erros sem questionamento das estruturas existentes, da aprendizagem de ciclo duplo (double-loop learning), na qual normas, valores e modelos mentais podem ser revisados.

Essa distinção é particularmente relevante para escritórios de arquitetura e organizações intensivas em conhecimento. Muitas vezes, o retrabalho, os atrasos ou os problemas de comunicação não decorrem apenas de falhas operacionais, mas de pressupostos organizacionais que permanecem inalterados ao longo do tempo.

Peter Senge (1990), ao desenvolver o conceito de organizações que aprendem, amplia essa discussão ao afirmar que a capacidade de aprender mais rapidamente do que as mudanças do ambiente constitui uma das principais fontes de vantagem competitiva contemporânea. Para o autor, a aprendizagem organizacional depende da construção de uma visão sistêmica, da circulação do conhecimento e da capacidade coletiva de reflexão.

Essa perspectiva também encontra respaldo nos estudos de Ikujiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi (1997), que demonstram que a criação de conhecimento ocorre por meio da interação contínua entre conhecimentos tácitos e explícitos. Organizações competitivas não apenas acumulam experiência; elas transformam experiências em práticas compartilhadas, padrões de trabalho e novas competências.

Essa discussão conduz a um conceito particularmente relevante para compreender a maturidade organizacional: as capacidades dinâmicas.

Capacidades dinâmicas: a base da adaptação organizacional

Em um artigo clássico publicado no Strategic Management Journal, Teece, Pisano e Shuen (1997) introduziram o conceito de dynamic capabilities, definido como a capacidade das organizações de integrar, construir e reconfigurar competências internas e externas diante de ambientes em transformação.

A ideia rompe com abordagens tradicionais da estratégia, que enfatizavam recursos estáticos ou vantagens competitivas relativamente permanentes. Em contextos caracterizados por mudanças tecnológicas, novos modelos de negócio e crescente complexidade, a capacidade de adaptação torna-se mais importante do que a posse de recursos específicos.

Eisenhardt e Martin (2000) aprofundam essa discussão ao demonstrar que capacidades dinâmicas são sustentadas por processos organizacionais como integração, aprendizagem, coordenação e tomada de decisão.

A relação com a maturidade organizacional é direta. Os escritórios mais maduros tendem a apresentar maior capacidade de:

  • integrar informações e diferentes especialidades;
  • estruturar processos decisórios;
  • antecipar riscos;
  • aprender a partir de projetos anteriores;
  • incorporar novas tecnologias;
  • adaptar-se a mudanças regulatórias e de mercado.

Percebe-se, portanto, que a evolução organizacional não depende apenas da adoção de ferramentas, mas da capacidade de reorganizar continuamente conhecimentos, processos e relações. Essa é, em essência, uma questão de governança.

Governança como mecanismo de adaptação e geração de valor

Tradicionalmente associada ao controle e à conformidade, a governança passou, nas últimas décadas, por uma ampliação conceitual significativa.

Os G20/OECD Principles of Corporate Governance (OECD, 2023) e a ISO 37000:2021 definem governança como o sistema pelo qual organizações são dirigidas e supervisionadas, orientando sua capacidade de gerar valor sustentável no longo prazo.

Essa definição é particularmente importante porque desloca a governança de uma lógica exclusivamente normativa para uma lógica adaptativa.

Governança não se restringe ao estabelecimento de regras.

Ela envolve a criação de condições para que decisões sejam tomadas de forma consistente, riscos sejam gerenciados e o aprendizado organizacional seja incorporado às práticas cotidianas.

Essa perspectiva aproxima a governança da gestão de projetos. O PMBOK® Guide – Seventh Edition (PMI, 2021) reforça que projetos bem-sucedidos dependem da integração entre princípios de governança, gestão de riscos, engajamento das partes interessadas e geração de valor.

Sob essa ótica, governança deixa de representar burocracia e passa a representar capacidade de coordenação. Desta forma, em organizações intensivas em conhecimento, como escritórios de arquitetura, essa capacidade é particularmente relevante, uma vez que os resultados dependem da interação entre diferentes atores, disciplinas e interesses.

Liderança e desenho organizacional

Existe ainda um elemento frequentemente negligenciado quando se discute maturidade organizacional: a liderança.

John Kotter (1996) destaca que grande parte das iniciativas de mudança fracassa não pela ausência de conhecimento técnico, mas pela incapacidade de criar condições organizacionais favoráveis à transformação.

Ronald Heifetz (1994), por sua vez, diferencia problemas técnicos de desafios adaptativos. Problemas técnicos podem ser resolvidos por meio de procedimentos conhecidos. Desafios adaptativos exigem aprendizagem, revisão de pressupostos e mudanças comportamentais.

Essa distinção é especialmente pertinente para a arquitetura. Assim como um projeto organiza espaços para favorecer determinados usos e relações, a liderança organiza processos para favorecer determinados comportamentos, fluxos de informação e formas de cooperação.

Nesse sentido, liderar significa desenhar sistemas organizacionais capazes de aprender, adaptar-se e evoluir.

Diagnóstico, aprendizagem e evolução contínua

A literatura contemporânea sobre maturidade organizacional, aprendizagem e capacidades dinâmicas converge para uma mesma conclusão: organizações sustentáveis são aquelas capazes de transformar experiência em conhecimento, conhecimento em processos e processos em resultados consistentes.

O diagnóstico representa apenas o ponto de partida dessa trajetória. Seu valor não está na classificação ou na atribuição de níveis, mas na capacidade de produzir reflexão, orientar decisões e apoiar processos contínuos de evolução.

Foi a partir dessa compreensão que surgiu o Framework Pensaer, mais do que um instrumento de avaliação, ele foi concebido como uma metodologia para apoiar a construção de capacidades organizacionais, fortalecendo a integração, a inteligência de projeto, a governança e a aprendizagem contínua.

Em um contexto marcado por rápidas transformações tecnológicas, novas exigências sociais e crescente complexidade, talvez a principal característica das organizações maduras não seja a estabilidade mas, justamente, a capacidade de continuar aprendendo.

Referências

ARGYRIS, C.; SCHÖN, D. Organizational Learning: A Theory of Action Perspective. Reading: Addison-Wesley, 1978.

ARGYRIS, C.; SCHÖN, D. Organizational Learning II: Theory, Method and Practice. Reading: Addison-Wesley, 1996.

CROSBY, P. B. Quality is Free: The Art of Making Quality Certain. New York: McGraw-Hill, 1979.

EISENHARDT, K. M.; MARTIN, J. A. Dynamic capabilities: what are they? Strategic Management Journal, v. 21, n. 10-11, p. 1105-1121, 2000.

HEIFETZ, R. A. Leadership Without Easy Answers. Cambridge: Harvard University Press, 1994.

KERZNER, H. Strategic Planning for Project Management Using a Project Management Maturity Model. New York: Wiley, 2001.

KOTTER, J. P. Leading Change. Boston: Harvard Business School Press, 1996.

NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação de Conhecimento na Empresa. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

OECD. G20/OECD Principles of Corporate Governance. Paris: OECD Publishing, 2023.

PAULK, M. C. et al. Capability Maturity Model for Software, Version 1.1. Pittsburgh: Software Engineering Institute, Carnegie Mellon University, 1993.

PMI – PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. A Guide to the Project Management Body of Knowledge (PMBOK® Guide). 7. ed. Newtown Square: PMI, 2021.

PRADO, D. Maturidade em Gerenciamento de Projetos. 3. ed. Nova Lima: Falconi, 2015.

SENGE, P. M. A Quinta Disciplina: Arte e Prática da Organização que Aprende. Rio de Janeiro: BestSeller, 2017.

TEECE, D. J.; PISANO, G.; SHUEN, A. Dynamic capabilities and strategic management. Strategic Management Journal, v. 18, n. 7, p. 509-533, 1997.

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 37000:2021 – Governance of Organizations — Guidance. Geneva: ISO, 2021.

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