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Fernanda F. D’Agostini • 24/09/2026

Cidade Educadora: território, educação e patrimônio

Como a formação docente, a gestão de projetos e a participação social podem transformar o território em espaço de aprendizagem, memória e pertencimento.

Quando a cidade passa a ser compreendida como espaço de aprendizagem, o patrimônio deixa de ser apenas aquilo que precisa ser preservado e passa a ser também aquilo que precisa ser conhecido, interpretado, apropriado e transmitido entre gerações.

Pensar o patrimônio cultural ainda costuma remeter, em primeiro lugar, a monumentos, edifícios históricos, centros urbanos protegidos ou objetos reconhecidos oficialmente por órgãos de preservação. Essa dimensão permanece fundamental, mas ela representa apenas uma parte daquilo que uma sociedade reconhece como significativo em sua trajetória.

A Constituição Federal de 1988 já estabelece uma compreensão mais ampla ao incluir entre os bens que constituem o patrimônio cultural brasileiro as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver, além de obras, objetos, documentos, edificações, conjuntos urbanos e sítios de diferentes naturezas. O patrimônio, portanto, não se limita ao excepcional: ele também está relacionado à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

Essa mudança de perspectiva é importante porque desloca uma questão central da preservação: não basta perguntar o que deve ser protegido; é preciso compreender por que determinado bem, lugar, prática ou saber é significativo para uma comunidade e como esse significado pode permanecer vivo.

É justamente nesse ponto que a ideia de território educativo ganha força. Uma cidade não é apenas o espaço físico onde as pessoas vivem, trabalham e circulam. Ela também reúne histórias, conflitos, conhecimentos, práticas, relações sociais e referências culturais que podem ser mobilizados em processos de aprendizagem. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ao tratar atualmente da Educação Patrimonial, reconhece explicitamente que os territórios são espaços educativos e que os bens culturais estão inseridos nos espaços de vida das pessoas. A instituição também destaca a necessidade de processos educativos coletivos, dialógicos e participativos, nos quais as comunidades tenham participação efetiva.

A partir dessa perspectiva, falar em Cidade Educadora não significa apenas ampliar a oferta de equipamentos ou atividades educacionais. Significa reconhecer que a aprendizagem pode acontecer em diferentes lugares e ao longo de toda a vida, articulando escola, comunidade, espaços públicos, instituições culturais, políticas públicas e território. É justamente nessa articulação que a gestão de projetos e a formação docente passam a ter um papel estratégico.

O território como fonte de conhecimento

A ideia de que aprendemos a partir da relação com o ambiente em que vivemos não é nova. Célestin Freinet, ao defender práticas pedagógicas vinculadas à observação e à experiência, rompeu com uma concepção de escola excessivamente afastada da realidade cotidiana dos estudantes. Paulo Freire, por outro caminho, também insistiu na importância de compreender a leitura do mundo como dimensão inseparável da leitura da palavra. Antes de interpretar textos, imagens ou conceitos, o sujeito já interpreta a realidade na qual está inserido.

Essa perspectiva oferece uma chave importante para a educação patrimonial. Se o território é parte da experiência cotidiana dos estudantes, ele pode ser utilizado como fonte primária de investigação. Uma rua pode revelar processos de transformação urbana; uma antiga residência pode permitir discutir modos de morar; um mercado pode introduzir questões relacionadas à alimentação, ao trabalho e às migrações; uma festa tradicional pode revelar formas de sociabilidade e pertencimento. O valor pedagógico desses elementos, entretanto, não está simplesmente em sua existência, mas na possibilidade de transformá-los em objetos de investigação e interpretação.

É nesse sentido que a educação patrimonial contemporânea se distancia de uma prática baseada exclusivamente na transmissão de informações sobre bens históricos. O Iphan define a Educação Patrimonial como um conjunto de processos educativos voltados à compreensão socio-histórica das referências culturais, tendo como objetivos o reconhecimento, a valorização, a apropriação social e a preservação. Suas diretrizes atuais enfatizam ainda que o patrimônio é um campo de conflito, que diferentes comunidades possuem diferentes percepções sobre aquilo que consideram patrimônio e que a participação social deve integrar os processos de identificação e reconhecimento.

Essa concepção dialoga com as reflexões de Maria Cecília Londres Fonseca, para quem as políticas de patrimônio não podem ser compreendidas apenas como ações técnicas de proteção de objetos, mas também como processos de atribuição de valores. Afinal, reconhecer algo como patrimônio significa selecionar, interpretar e conferir visibilidade a determinadas referências culturais. A pergunta sobre patrimônio é, portanto, também uma pergunta sobre memória, representação e poder.

É por isso que uma educação patrimonial consistente não deveria começar oferecendo respostas prontas aos estudantes. Ela pode começar formulando perguntas: o que este território conta sobre sua própria história? Quem produziu essas referências? Quem as reconhece como importantes? Quais memórias estão presentes? Quais foram esquecidas? E quais grupos ainda não estão representados nas narrativas oficiais sobre a cidade?

Quando essas perguntas entram no processo educativo, o território deixa de ser cenário e passa a ser fonte de conhecimento.

Da formação docente à mediação territorial

Para que isso aconteça, entretanto, não basta colocar o estudante diante da cidade. É necessário formar professores capazes de mediar essa experiência.

A formação docente assume, nesse contexto, uma dimensão que ultrapassa o domínio de conteúdos específicos, já que o professor precisa desenvolver capacidade de observação, pesquisa, problematização e articulação entre diferentes fontes de conhecimento. Além disso, precisa compreender o território, identificar referências culturais, reconhecer conflitos de memória e transformar essas questões em situações de aprendizagem adequadas à faixa etária e aos objetivos curriculares.

Essa mudança também exige superar a ideia de que educação patrimonial corresponde necessariamente a uma visita guiada. Uma visita pode ser parte de um projeto, mas não constitui, por si só, um processo educativo. O que define sua qualidade é o que acontece antes, durante e depois dela: quais perguntas orientam a investigação, que fontes são utilizadas, como os estudantes registram suas descobertas, de que maneira confrontam diferentes interpretações e que produto ou reflexão resulta dessa experiência.

Nesse aspecto, metodologias como os estudos do meio, as aulas-passeio, a pesquisa de campo e os inventários participativos podem ser particularmente potentes. O próprio Iphan reconhece o Inventário Participativo como ferramenta de Educação Patrimonial e propõe que as comunidades assumam protagonismo na identificação, descrição, classificação e definição de suas referências culturais. A edição atualizada do manual, publicada em 2025, reforça seu potencial para fortalecer vínculos comunitários, participação e construção de narrativas coletivas.

Um inventário realizado por estudantes, por exemplo, pode partir de questões simples: quais lugares são importantes para a comunidade? Que objetos guardam histórias? Quais celebrações fazem parte da vida do bairro? Que saberes são transmitidos entre gerações? Quem são as pessoas reconhecidas como detentoras de determinado conhecimento?

O resultado não precisa ser apenas uma lista. Pode assumir a forma de mapas, entrevistas, fotografias, podcasts, exposições, vídeos, publicações digitais ou roteiros de caminhada. O importante é que o estudante deixe de ocupar exclusivamente a posição de receptor e passe a atuar como pesquisador e produtor de conhecimento sobre o próprio território.

É aqui que o planejamento pedagógico se torna decisivo. A lógica do planejamento reverso, sistematizada por Grant Wiggins e Jay McTighe, pode contribuir para estruturar essas experiências a partir da definição prévia das aprendizagens esperadas, das evidências que demonstrarão essa aprendizagem e das experiências necessárias para alcançá-la. Uma saída de campo deixa, assim, de ser uma atividade isolada e passa a integrar um percurso pedagógico coerente.

A formação docente, portanto, não deve simplesmente ensinar “atividades de patrimônio”. Deve ampliar a capacidade do professor de ler o território como recurso pedagógico e construir experiências de aprendizagem a partir dele.

Quando educação patrimonial também é gestão de projetos

Se a formação docente é necessária para transformar o território em objeto de aprendizagem, ela não é suficiente para garantir a continuidade das ações.

Projetos de educação patrimonial frequentemente envolvem escolas, famílias, estudantes, professores, gestores públicos, instituições culturais, universidades, organizações comunitárias e órgãos de preservação. Cada ator possui responsabilidades, conhecimentos, interesses e expectativas diferentes. Quanto maior a complexidade da iniciativa, maior a necessidade de coordenação.

É nesse ponto que a gestão de projetos deixa de ser uma ferramenta meramente administrativa e passa a funcionar como uma infraestrutura de articulação.

Definir objetivos, escopo, públicos, responsabilidades, cronograma, recursos, riscos, canais de comunicação, entregas e critérios de avaliação não significa burocratizar uma ação cultural. Significa criar condições para que uma boa intenção consiga se transformar em uma iniciativa consistente, coordenada e sustentável.

A própria UNESCO, ao discutir as chamadas learning cities, destaca que a construção de uma cidade de aprendizagem exige planejamento, participação dos diferentes stakeholders, estruturas coordenadas, monitoramento, avaliação e financiamento sustentável. Ou seja, a cidade educadora não é produzida espontaneamente: ela depende de uma estratégia de longo prazo e da articulação entre diferentes atores.

Essa abordagem aproxima diretamente a Cidade Educadora da gestão de projetos. Um programa municipal de educação patrimonial, por exemplo, pode envolver diagnóstico territorial, definição de objetivos, identificação de stakeholders, planejamento de ações, formação de equipes, execução de projetos-piloto, monitoramento de resultados e avaliação. A metodologia de projetos oferece uma estrutura para que diferentes conhecimentos e organizações trabalhem em torno de objetivos comuns.

Mas existe uma questão ainda mais profunda: quem participa da definição desses objetivos?

O patrimônio como campo de negociação

O patrimônio cultural não é um campo neutro. A escolha daquilo que será reconhecido, protegido, divulgado ou incorporado às narrativas oficiais envolve processos de atribuição de valor.

Françoise Choay, ao analisar a formação histórica da ideia de patrimônio, demonstra como a própria noção de monumento e de patrimônio foi sendo transformada ao longo do tempo. Pierre Nora, por sua vez, ao discutir os “lugares de memória”, chama atenção para a relação entre memória, identidade e os lugares nos quais determinadas lembranças são socialmente cristalizadas.

Essas contribuições ajudam a compreender por que diferentes grupos podem atribuir valores distintos a um mesmo território. Para ilustrar, uma antiga fábrica pode representar patrimônio industrial para pesquisadores e, simultaneamente, representar a história de trabalho de várias famílias para os moradores. Assim como, uma praça pode ser reconhecida institucionalmente por suas características paisagísticas, enquanto a comunidade a identifica principalmente como lugar de encontro e uma manifestação cultural pode ser desconhecida pelos instrumentos tradicionais de preservação e, ainda assim, possuir enorme significado para determinado grupo social.

É justamente por isso que os instrumentos participativos são importantes.

O Iphan estabelece que os inventários participativos devem considerar territórios, sociabilidades e o direito ao espaço público, permitindo que os próprios grupos sociais identifiquem e valorizem suas referências identitárias. O inventário não substitui os instrumentos institucionais de preservação; ele acrescenta outras camadas de conhecimento e pode subsidiar políticas públicas mais adequadas às realidades locais.

Essa lógica permite pensar em uma relação particularmente produtiva entre o mapa institucional e o mapa vivido.

O mapa institucional pode apresentar bens tombados, áreas protegidas, equipamentos culturais e outras informações produzidas pelo poder público. O mapa vivido, construído com a comunidade, pode revelar lugares de encontro, trajetórias migratórias, espaços de trabalho, práticas culturais, memórias familiares e referências afetivas.

O confronto entre essas duas representações não precisa produzir uma disputa entre conhecimento técnico e conhecimento popular. Pode produzir algo mais interessante: uma leitura territorial mais completa.

Ferramentas digitais de geoprocessamento, como o GeoSampa, podem contribuir para esse processo quando utilizadas não apenas para localizar informações, mas para compará-las, interpretá-las e relacioná-las às experiências dos habitantes. A tecnologia, nesse caso, não substitui a participação: ela amplia a capacidade de visualizar e organizar informações produzidas por diferentes fontes.

Intersetorialidade: porque o patrimônio não cabe em uma secretaria

Essa complexidade também explica por que a gestão do patrimônio não pode permanecer restrita à política cultural.

A continuidade de uma prática cultural pode depender de políticas educacionais. A preservação de determinado território pode estar relacionada ao planejamento urbano. A permanência de grupos sociais pode depender de políticas habitacionais. O acesso a um bem cultural pode envolver mobilidade e acessibilidade. A sustentabilidade econômica de determinadas práticas pode depender de políticas de desenvolvimento local.

Essa é a razão pela qual o conceito de intersetorialidade, discutido por autores como Luciano Prates Junqueira, é tão importante para pensar projetos territoriais. Problemas complexos não são adequadamente solucionados quando cada setor trabalha isoladamente sobre apenas uma parte da realidade.

O próprio Iphan estabelece atualmente, entre as premissas de sua política de Educação Patrimonial, a necessidade de considerar a intersetorialidade das políticas públicas e de trabalhar o patrimônio de forma transversal e dialógica.

A questão, portanto, não é simplesmente reunir profissionais de diferentes áreas em uma mesma reunião. Intersetorialidade implica construir objetivos compartilhados, definir responsabilidades, estabelecer fluxos de comunicação e criar mecanismos para que diferentes conhecimentos influenciem efetivamente as decisões.

Aqui, novamente, a gestão de projetos oferece instrumentos relevantes, como por exemplo, a matriz de responsabilidades, o planejamento de stakeholders, a gestão de riscos, o registro de decisões e o acompanhamento de indicadores podem parecer ferramentas associadas ao universo empresarial, mas também são úteis em projetos culturais e educacionais complexos. Quando adaptadas às características do território e das instituições envolvidas, essas ferramentas podem reduzir a dispersão de esforços e aumentar a capacidade de transformar conhecimento em ação.

Transdisciplinaridade: compreender o território em sua complexidade

A intersetorialidade precisa ser acompanhada por uma segunda mudança: a capacidade de conectar diferentes campos do conhecimento.

Edgar Morin alerta para os limites de uma produção de conhecimento excessivamente fragmentada. Para compreender fenômenos complexos, não basta acumular conhecimentos especializados; é necessário estabelecer relações entre eles. Basarab Nicolescu, ao desenvolver a perspectiva transdisciplinar, amplia essa discussão ao propor uma abordagem que atravesse as fronteiras disciplinares e considere diferentes níveis de realidade e formas de conhecimento.

O território é um exemplo evidente dessa complexidade, por exemplo, uma área histórica pode ser simultaneamente objeto arquitetônico, paisagem, espaço econômico, lugar de memória, território de disputas sociais e ambiente de aprendizagem. Separar essas dimensões pode ser necessário para estudá-las, mas não é suficiente para compreendê-las.

Por isso, um projeto de educação patrimonial pode reunir história, geografia, arquitetura, artes, literatura, tecnologia, ciências sociais e planejamento urbano sem transformar a atividade em uma simples soma de disciplinas. O objetivo é construir uma questão comum capaz de mobilizar diferentes saberes.

Essa perspectiva também muda o papel do professor, ao invés de dominar sozinho todas as áreas envolvidas, ele passa a atuar como articulador de conhecimentos, estabelecendo conexões entre especialistas, estudantes, comunidade e território. Essa é uma mudança significativa: ensinar sobre o patrimônio deixa de significar apenas transmitir informações sobre o passado e passa a significar criar condições para que diferentes sujeitos interpretem o território no presente.

Da escola para a cidade: aprendizagem ao longo da vida

Essa concepção amplia também a própria ideia de Cidade Educadora, visto que a aprendizagem não começa quando a criança entra na escola nem termina quando conclui sua formação formal. Famílias, espaços públicos, museus, bibliotecas, locais de trabalho, associações, equipamentos culturais e comunidades também participam da construção de conhecimentos.

A UNESCO utiliza o conceito de Learning Cities para descrever cidades que mobilizam recursos de diferentes setores para promover aprendizagem inclusiva ao longo da vida. A proposta relaciona educação, participação social, desenvolvimento sustentável e fortalecimento das comunidades, aproximando-se diretamente dos objetivos do ODS 4 e do ODS 11.

Essa abordagem é particularmente relevante para o patrimônio porque permite compreender a transmissão cultural como um processo contínuo.

Na Educação Infantil, ela pode envolver histórias familiares, cantigas, brincadeiras, objetos, festas e experiências sensoriais. As contribuições de Loris Malaguzzi e da experiência de Reggio Emilia ajudam a reconhecer as múltiplas linguagens pelas quais as crianças interpretam e representam o mundo.

No Ensino Fundamental, o território pode ser investigado por meio de projetos de autoria, inventários, entrevistas, cartografias e produções audiovisuais. No Ensino Médio, questões relacionadas à identidade, trabalho, mobilidade, desigualdade, memória e transformação urbana podem ganhar maior complexidade analítica. Na Educação de Jovens e Adultos, as próprias trajetórias dos estudantes podem constituir fontes fundamentais para compreender processos migratórios, transformações do trabalho e mudanças na cidade.

A cidade educadora, portanto, não é uma extensão física da escola. Ela é uma rede de espaços, relações e oportunidades de aprendizagem.

Patrimônio vivo não significa patrimônio congelado

Talvez essa seja a mudança conceitual mais importante: preservar não significa impedir que algo mude. Uma manifestação cultural que permanece viva necessariamente se transforma, porque cada geração interpreta, adapta e recria aquilo que recebeu das anteriores.

O patrimônio imaterial, por definição, possui essa dimensão dinâmica. A UNESCO destaca que o patrimônio cultural imaterial é continuamente recriado pelas comunidades em interação com seu ambiente, sua história e sua identidade. A educação pode contribuir para essa continuidade justamente quando aproxima as novas gerações dos conhecimentos e práticas existentes em suas próprias comunidades.

Por isso, o objetivo de uma política ou projeto de educação patrimonial não deveria ser simplesmente reproduzir o passado, mas sim criar condições para que as pessoas compreendam o passado, reconheçam o presente e participem conscientemente da construção do futuro.

Essa perspectiva é particularmente relevante diante das transformações urbanas contemporâneas. Quando um bairro se transforma rapidamente, não desaparecem apenas edifícios. Podem desaparecer formas de sociabilidade, atividades econômicas, referências afetivas, modos de usar o espaço e memórias coletivas.

Reconhecer essas dimensões não significa impedir toda transformação urbana. Significa qualificar as decisões sobre transformação, tornando visíveis os valores culturais envolvidos e permitindo que diferentes grupos participem dos processos que definem o futuro do território.

É nesse ponto que patrimônio, planejamento urbano, educação e gestão de projetos se encontram.

Transformar território em experiência, e experiência em conhecimento

Uma Cidade Educadora não se constrói apenas com discursos sobre educação ou patrimônio. Ela depende da capacidade de transformar princípios em projetos concretos. Isso exige diagnóstico, escuta, formação, planejamento, articulação institucional, recursos, comunicação, acompanhamento e avaliação. Mas é necessário ir além e compreender que diferentes atores possuem diferentes formas de conhecer e atribuir significado ao território.

A gestão de projetos contribui ao organizar essa complexidade. A prática docente contribui ao transformar a experiência em aprendizagem. A participação comunitária contribui ao incorporar conhecimentos e memórias que não estão necessariamente presentes nos registros institucionais. As políticas públicas fornecem instrumentos de proteção, financiamento e continuidade. E o território conecta todas essas dimensões.

O resultado não é apenas uma atividade cultural ou uma aula diferente: É a construção gradual de uma cultura de participação, reconhecimento e pertencimento.

Quando uma criança identifica a história de uma rua, quando um jovem entrevista um antigo morador, quando uma comunidade registra seus saberes, quando professores transformam essas descobertas em conhecimento e quando gestores públicos utilizam essas informações para qualificar suas decisões, o patrimônio deixa de ocupar um lugar distante na cidade e passa a fazer parte da experiência cotidiana.

Conclusão: uma cidade educadora é uma cidade que aprende com seu próprio território

Transformar uma cidade em espaço educativo não significa transformar cada rua em uma sala de aula. Significa reconhecer que o conhecimento está distribuído pelo território e que diferentes pessoas, instituições e comunidades são produtoras desse conhecimento.

Da mesma forma, preservar patrimônio não significa apenas conservar objetos ou edifícios. Significa criar condições para que referências culturais continuem sendo reconhecidas, interpretadas, transmitidas e ressignificadas pelas gerações. Dentro deste contexto, é nesse encontro que a gestão de projetos e a prática docente assumem uma função estratégica.

A gestão oferece método para transformar intenções em ações coordenadas, articulando objetivos, pessoas, recursos, riscos, comunicação e resultados. A formação docente oferece capacidade para transformar território em experiência investigativa e experiência em aprendizagem. A participação social amplia o campo de referências reconhecidas. E a intersetorialidade permite que educação, cultura, planejamento urbano e outras políticas públicas deixem de atuar como compartimentos isolados.

O desafio contemporâneo não é simplesmente preservar uma cidade que existiu, mas sim construir condições para que a cidade continue produzindo memória, conhecimento, identidade e pertencimento sem deixar de se transformar.

Essa talvez seja uma das maiores contribuições da perspectiva de Cidade Educadora: compreender que uma cidade que aprende também é uma cidade capaz de reconhecer aquilo que recebeu, interpretar criticamente aquilo que vive e participar conscientemente daquilo que ainda está construindo.

Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República.

CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade; UNESP, 2001.

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FREINET, Célestin. As técnicas Freinet da escola moderna. Lisboa: Estampa, 1975.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1989.

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JUNQUEIRA, Luciano A. Prates. A gestão intersetorial das políticas sociais e o terceiro setor. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 25-36, 2004.

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NICOLESCU, Basarab. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, 1993.

WIGGINS, Grant; MCTIGHE, Jay. Understanding by Design. 2. ed. Alexandria: ASCD, 2005.

UNESCO. Learning cities: drivers of inclusion and sustainability. Paris: UNESCO, 2019.

UNESCO. Living Heritage and Education. UNESCO, 2013.

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